Praemeditatio Malorum

Greco atacando molotov contra a policia

Greco atacando molotov contra a policia

Na minha ultima postagem[1] tinha me referido a próxima postagem, (no caso a que escrevo agora) dizendo que eu iria me referir certamente aos textos de Foucault que se referem ao controle, e juntamente com o controle gostaria de falar um pouco sobre o nascimento da biopolitica, segurança território e população. Bem esse assunto não saiu da minha pauta, ainda pretendo adentrar nesses assuntos. Mas lendo um pouco no meio da neve em que me encontro, achei algo magnífico para a minha monografia.

 

Nos estudos de Foucault sobre os cuidados de si, ele vai pesquisar na Roma antiga e nos antigos filosofos gregos técnicas de cuidados sobre si. Bem Foucault encontra técnicas de cuidados digamos “matérias” como o jejum por exemplo. Mas digamos que a maioria dos gregos tinham uma certa desconfia com as maravilhas que esse ascetismo promoveria.

Bem o que realmente me chama a atenção seria o fato de Foucault chamar a atenção para uma pratica dos estóicos restritos ( Senêca é um deles).

 

O mais celebre desses exercícios de pensamento era a praemeditatio malorum, meditação dos males futuros. (…) É preciso compreender no que ela {praemeditatio malorum} consiste: aparentemente, é uma previsão sombria e pessimista do futuro. De fato, é uma outra coisa[2].

 

Então Foucault explicara no que se resumia a essa pratica. Bem para a minha pesquisa isso é de extrema importância, pois acho num pensamento da antiguidade algo muito parecido com o que a critica literária chama de gênero Distopico. Primeiramente vou apresentar o que Foucault chama de praemeditatio malorum, e em seguida apresentarei um conceito de distopia. Farei um paralelo entre os dois, mostrando que de uma certa maneira existe uma tradição no pensamento ocidental que se propõem em pensar num futuro não maravilhoso, ou não utópico. A Utopia, apesar do termo nascer somente bem depois dos gregos por volta do século XV, já era praticada na literatura grega, pois  A Republica de Platão é considerada a primeira literatura utópica. Se a literatura utópica já existia na Grécia antiga, não é de se assustar que a literatura, ou praticas de pensamentos distopicos também existissem.

Mas bem, voltemos a explanação de Foucault sobre praemeditatio malorum:

Primeiramente, não se trata de se representar um futuro tal como é possível que se produza. Mas, de um modo muito sistemático, imaginar que o pior posso se produzir, mesmo que tenha pouquíssimas chances de acontecer. Senêca diz isso a respeito do incêndio que havia destruído a cidade de Lyon: esse exemplo deve nos ensinar a considerar o pior como sempre certo.

 

A mim algo de distopico existe nessa afirmação, pois a distopia cria um futuro pior, o que a utopia significa é que se as coisas estão ruins, elas podem ficar pior. Mas continuemos com a explanação de Foucault:

 

Em seguida, não é preciso pensar que essas coisas são possíveis de se produzir num futuro mais ou menos longínquo, mas ter uma representação atual delas, já se realizando. Imaginemos, por exemplo, que já estamos exilados, já submetidos ao suplicio.

 

Para nossa pesquisa é muito claro que Orwell ao escrever  1984 tem um pensamento muito parecido, para Orwell não se trata de ser o controle uma pratica de um futuro longínquo. Na época em que Orwell escreveu 1984 não existia um sistema de monitoramento eletrônico, como câmeras de televisão, nem por isso ele deixou de escrever sobre isso, e de uma certa forma fazer o seu personagem vivenciar essa experiência. Logo, mesmo que o controle por meio eletrônico seja uma coisa possível num futuro possível, Orwell viveu isso, ele atualizou o pensamento, para Orwell o monitoramento eletrônico era algo atual, algo que se realizava.

 

Enfim, se devemos ter uma representação delas em sua atualidade, não é para que vivamos por antecipação o os sofrimentos ou as dores que nos causariam, mas para nos convencer de que não são, de modo algum, males reais, e que apenas a opniao que temos delas já nos faz considera-las como verdadeiras desgraças.

Vê-se bem: esse exercício não consiste em projetar um futuro possível de males reais, para nos acostumarmos com eles, mas em anular tanto o fututo quanto o mal. O futuro: já que temos dele uma representação como algo já dado num atualidade extrema. O mal: já que nos exercemos a não mais como considera-lo como tal.

 

Trata-se então de anular um futuro possível, ou um atual extremo. Acabar com algo, ruim. No nosso caso, ou seja o  livro 1984 é uma pratica bem parecida com a praemeditatio malorum,  é uma denuncia, Orwell critica os mecanismos de controle, e de vigilância para que isso não se realize.

BIBLIOGRAFIA.

Foucault,Michel. Resumo dos Cursos do Collège de France. JZE. Rio de Janeiro, 1997.

Orwell, Georg. 1984. Companhia editora nacional. São Paulo. 2005.


[1] Por ser um blog, eu estou me afastando um pouco da característica de artigo, ou de trabalho acadêmico. Acho que este blog é um espaço mais informal.

[2] Todas as citações são do ultimo capitulo do livro  Resumos do Collège de France, o nome do capitulo é os cuidados de si. A bibliografia básica esta no fim do texto.

Anúncios

~ por Murilo Esteves Juniorr em 20 de dezembro de 2008.

4 Respostas to “Praemeditatio Malorum”

  1. “Aniquilem os selvagens todos!”
    Frase usada no texto de Joseph Conrad para lembrar uma clássica atitude de um exército tradicional com seu poder militar soberano que não conhecia ou não tinha ainda a oportunidade de perceber que os métodos de contra-ataque a quaisquer inimigos desses soberanos precisariam ser mudados , mesmo pq seria anacronismos associarmos um com o outro. Mas é isso, hoje a multidão alimenta e ao mesmo tempo cria espaços para a existência de atques contra toda e qualquer forma de soberania de poder seja herdando a tradição ou na tentativa de modernização através dos métodos de contra-insurgência já comentado em outro momento.

  2. to ai com rafalel. bem criamos espaços de resistencia e ao mesmo tempo alimentamos o nosso inimigo, nosso inimigo existe pois resistimos. entao fica a questao complicada: como resistir? pois resistir tambem é de certa forma alimentar nosso inimigo. mas o “bonito”disso tudo é que nós o alimentamos, ele vive por nossa causa, nos somos o “domesticador”do nosso inimigo. nossos somos a criatividade, nosso inimigo esta sempre um passo atraz de nos. estamos na frente, a resistencia é criativa, inventiva, isso para mim é a verdadeira liberdade.

  3. bom Murilim, não sei se isso é a verdadeira liberdade, penso que pensar em resistir a algo já é se enquadrar dentro de um domínio já posto e colocado, então, onde está a verdadeira liberdade, talvez a liberdade se encontra no pensamento, na dialética ou na metafísica apenas. Concordo que quando vc identifica o contrário, o antagônico, vc se identifica também: ex.: Sartre considera que o anti-semitismo que defini quem é o judeu, a idéia de raça é uma criação ou manifesrtação através da resistência coletiva da opressão racial, ou a classe econômica se manifesta por meio da resistência dos atos coletivos dos diversos indivíduos que compôem a multidão e que são extremamente produtivos: não produtivos segundo Marx pois pra esse a produção se encontra nas indústrias ( centro do capital e pelo proletariado) e sim de acordo com a produção do trabalho imaterial que seria a produção de idéias, de comunicação, de conhecimentos, de iumagens, de símbolos e etc, indivíduos esses são os pobres, o miseráveis, os migrantes, os imigrantes, os trabalhadores da agricltura, das fábricas tb. Penso que a classe dominante que nasceu do capital se sustenta pela dominação da sua contradição – os dominados- então o contrário e pensar nas aintíteses, nos antagonismos é pensar em identidade e em resistência, mas liberdade não sei..onde está a liberdade do que no ato de pensar a multidão.

  4. pensando bem Murilo, a criatividade é sim uma forma de se libertar de qualquer prisão, uma vez que ao criar colocamos para o mundo nossa criatura, que quando é essa criatura uma imagem, uma linguagem ou um símbolo, acabamos de alimentar com isso o que temos de comum com a multidão: singularidades e multiplicidades criados em forma de trabalho imaterial, uma forma de resistir ao sistema do capital.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: