A importância de novas formas de resistência, um diálogo com Celso.

Meu 1984

Meu 1984

 

“Um homem só ira te salvar, um homem só para te trair matar… esse homem é você… Não ha nada de divino, nem de sobrenatural é dar um passo a frente confiar, fazer diferente enfrentar a escuridão, não vai ser fácil, mas nunca foi. Vá ser o que quiser, mãos feitas para construir”

Dead Fish

 

Na minha ultima postagem eu tentei mostrar algumas formas de resistência, é claro que muita coisa ficou vaga. Mas acho interessante que vocês notem que todos os meus exemplos foram de livros e filmes, não é a toa que a minha monografia se baseia num livro de literatura. O nome do livro esta no próprio blog 1984 de George Orwell.

A principio esse blog era para que eu continuasse minha pesquisa aqui nos estados unidos, para que meu cérebro não atrofiasse. Bem, felizmente eu gosto muito dos contornos que a vida, e as possibilidades nos provocam, assim vejo que estou sendo obrigado a caminhar por outros caminhos, e outros textos que acho bem interessante. De qualquer maneira, acredito que a argumentação presente aqui faz parte de uma complexa explicação sobre a formação da atual sociedade, que felizmente por ser “liquida” assume vários nomes como: pós-industrial, capitalista informacional, cibernética, virtual, de controle, do espetáculo, do simulacro, do parece mas não é.

Como dito acima a atual sociedade assume varias nomeações tratam-se então para mim de uma sociedade complexa, acredito que a mais complexa que já existiu, por isso todos esses nomes. Logo se a sociedade assume varias facetas, e varias formas de agir, acredito também que existem varias lutas, varias batalhas a serem travadas e que os resistentes estão em todas essas batalhas, às vezes em varias ao mesmo tempo, às vezes em apenas uma, não importa! Sinceramente o importante é resistir, mostrar que ainda existem modos de vida diferentes, ao contrario do que a atual sociedade tenta mostrar. A importância de uma multiplicidade de luta mostra a importância do múltiplo, das varias lutas, dos vários desejos, e mostra a heterogeneidade, que é o contrario da homogeneidade que a sociedade atual propõe.

 O amigo Celso a pouco argumentou que proponho uma “luta” que talvez seja ultrapassada, ou que apenas uma luta não é o modo certo de guerrear, nas suas próprias palavras” Parece-me uma provocação a postular uma luta em um território extremamente movediço, um passo em falso e você desaparece”.

Afirmo aqui que não proponho uma única luta, estamos em guerra, proponho uma batalha, o que digo, o que faço é apenas em uma das múltiplas lutas que devemos lutar. Cada um sente uma proximidade, sente um afecto, a sociedade de controle é o que me faz falar, é contra isso que quero lutar. Existem varias lutas, ilimitadas, poderia aqui descrever varias delas: a luta contra o capitalismo (em suas varias facetas), a luta contra a miséria, a conservação do planeta, o livre passe pelos países, ou seja, uma cidadania global, as lutas são varias. Como eu caracterizei a sociedade acima com vários nomes, é claro que existem varias lutas.

Então, o território é movediço e pode até nos engolir, mas somos nômades, caminhamos por vários terrenos e transformamo-los em desertos através da crítica da sociedade de controle. Então eu passeio por outros assuntos, mas meu link é o meu território, ou seja, a sociedade de controle. Por isso acredito estar em movimento, passos falsos fazem parte do percurso, acredito mesmo acertar depois dos erros.

Proponho hoje, nessa postagem uma resposta ao Celso, por isso as partes em itálico no texto correspondem ao que ele disse.

“Até que ponto é possível exercer alguma influência junto à população para que ela venha a despertar utilizando a velha idéia de massa?”

Não quero despertar, nem acho que seja interessante a formação de uma “massa”, a mim interessa uma multidão, que propõem, na verdade que propõem a si mesmo lutas, varias lutas. Querem lutar pelo o que acreditam pelo que acham certo, pelo jeito que querem viver, não quero propor velhas idéias, nem assumir velhas formações, como disse anteriormente é importante que seja uma luta inventiva, criativa, com novas armas, não acredito que assumir velhas formações seja interessante para lutar com novos inimigos.

“algumas das perguntas que devem ser respondidas seria: quem ira resistir? Porque resistir? Como sobreviver na resistência?”

Tentarei responder as suas perguntas, não que eu as tenha, para mim se trata de um dialogo, acho interessante os comentários dos amigos no blog, por isso responderei, e espero outra resposta sua, isso torna as coisas bem interessantes.

Quem ira resistir? Quem levantara as armas? Não sei, mas não acredito que serão muitos. Faz parte da atual sociedade o biopoder, ou seja, o controle da vida e não dos indivíduos. Biopoder, ou seja, controle sobre a população em geral, trata-se basicamente de estatísticas, mas como conseguir essas estatísticas? Ora através do controle, não digo só o tecnológico, digo censo, perguntas na rua, mas também o tecnológico, todo mundo sabe que é totalmente cabível que uma grande empresa como o Google pode rastrear seus emails e os sites que você olha, facilmente através de um cruzamento de dados o Google pode saber o que você procura na net, quais sites você visita sempre, quais produtos você mais procura, assim ele pode traçar um perfil seu.

Quem ira resistir? São os poucos que não querem ter esses perfis traçados, não querem ser reconhecidos, são poucos que ainda se preocupam com a sua privacidade. Atualmente em Londres uma pessoa é filmada por 11 câmeras de vigilância diferentes, através do reconhecimento biométrico o centro de controle de informações de Londres pode monitorar qualquer pessoa pelas suas milhares de câmeras. O ditado que o Estado inglês diz é: se você não faz nada de errado não tem o que esconder. Entra então a questão do que é certo ou o que é errado? Você deve mesmo expor sua vida? Seus problemas pessoais? Para mim é basicamente isso, irão resistir os que acreditam ser a privacidade algo importante, pois mantém a pessoa com seu próprio modo de vida, não o condiciona a viver de uma maneira que o Estado ou a Sociedade de controle acredita ser certa.

Porque resistir? Para ter uma vida particular, ter sua autonomia, fazer o que você acredita ser certo! Agir de uma maneira a qual você não tenha que agir sobre a pressão de ter sempre alguém te vigiando.

O controle, o biopoder é de certa maneira um formador de opinião, e é até mesmo em alguns casos racistas. Porque resistir? Para não repetirmos erros do passado, pois foi através do controle de dados que o regime nazista foi capaz de promover o holocausto, foi através da maquina de censo que foi feito mais rápido censo da historia (ate o momento) que se reconheceram os judeus e tentou se eliminar uma raça.

Qual será o próximo inimigo? Eu gostaria de falar que são as pessoas que tem que informar dados biométricos para atravessar fronteiras internacionais, mas darei um exemplo mais simples. É Claro, e todo mundo sabe que hoje os sistemas de telemarketing e qualquer serviço feito através do telefone têm uma espécie de filtro, o que eu quero dizer é: quando você tem um telefone de cartão, ou seja, pré-pago, quando você liga para a sua operadora o seu numero passa por um filtro, de forma que, uma pessoa que tem um telefone de conta será atendido antes de você, mesmo que ele tenha ligado depois, e se outra pessoa que possui um telefone pós-pago ligar depois dele e esse ultimo gasta mais que o penúltimo ela também terá mais prioridade no atendimento.

Porque resistir? Bem nos Estados Unidos e em alguns países europeus sabemos que algumas empresas exigem exames de DNA para contratar as pessoas. Sabe por quê? Bem, pesquisa-se o DNA, se a pessoa possuir problemas genéticos e hereditários provavelmente causará um rombo maior ao seguro medico da empresa. Não seria um caso claro para lutarmos por resistir pela nossa privacidade? Biopoder puro, escolha de quem é saudável quem viverá mais?

Poderíamos seguir uma lista de problemas já possíveis como a instalação de micro-chips no corpo de algumas pessoas, isso já acontece. Esses chips possuem dados pessoais e biométricos, mas dados como conta bancaria,  saldo e outras informações, de modo que essa pessoa pode ser vetada de entrar em algum lugar. Isso é no mínimo um racismo com uma nova cara, uma nova forma de exclusão, ou ate mesmo uma forma de condicionamento. Isso você pode acessar, isso você pode conhecer, isso não, aquele outra não, ou seja, controle sobre o que você pode ou não conhecer.

Como se manter na resistência? Bem isso é uma guerra, de ação e reação, toda uma estratégia então deve ser traçada, mas depende do rumo da guerra. Não da para viver com previsões, dependeremos de dados matérias para saber como se manter na resistência. Mas a resistência é uma atividade contínua, ilimitada, sem fim. Tudo dependera de qual caminho a guerra vai tomar, quais novas armas serão inventadas, como os aparelhos de repressão tentarão parar com a guerra? Impossível saber.

“A constatação do controle me remete a perceber que se formou com o tempo um cordão umbilical que mantém os indivíduos ligados ao sistema reconhecendo-se mutuamente como parte de um mesmo modo de vida”

É claro que isso acontece, as pessoas querem segurança, as pessoas mesmo clamam pelo controle, querem ser vigiadas, acreditam que isso lhe propõem segurança, querem ser reconhecidas, querem que o estado ou algumas corporações saibam onde estão. Essas pessoas não param para pensar nas possibilidades que isso causa como traçar um perfil financeiro, ou que essas corporações podem obter dados pessoais que não lhe dizem respeito. Sim a sociedade de controle só existe, pois as pessoas querem que eles existam, as pessoas adoram saber que suas cidades têm mais câmeras se sentem mais seguras, o que eles não para param para pensar é que a maior parte do tempo essas câmeras monitoram pessoa normais e não atos criminosos. Para o capital é de extrema importância que as pessoas se sintam seguras, que queiram fornecer seus dados, pois podem traçar perfis, fazer com que essas pessoas passam por filtros, que se possa escolher o que cada pessoa possa acessar. O funcionamento é esse mesmo, a sociedade de controle não existe se as pessoas não participarem do controle, se as corporações ou os estados não tiverem os dados pessoais o mecanismo não funciona. Por isso acredito que a resistência tem dois lados, um ativo e outro passivo. O Ativo: invadir esses centros de informações, destruir as “nuvens” do Google, ou grandes centros de armazenamentos de dados. O modo passivo: esse já existe até legalmente, depois do holocausto o censo que pergunta sobre posses, sobre religião ou sobre a sua fortuna foi reconhecido como facultativo, você responde se quiser, pois esses dados podem formar perfis, e podem te transformar em “criminosos”. Acredito que o modo passivo é não fornecer informações, é fugir dos lugares de controle, é simplesmente se esquivar, sair fora é não estar registrado, estar fora de controle. [1]


[1] Gostaria de exemplificar essas identificações, e esses tracamentos de perfis atraves do filme codigo 46. É um romance que se passa numa sociedade de controle, que usa dados genéticos para filtrar as pessoas, ou seja escolher quem pode ter acesso e ao o que pode ter acesso.

~ por Murilo Esteves Juniorr em 8 08UTC janeiro 08UTC 2009.

Uma resposta to “A importância de novas formas de resistência, um diálogo com Celso.”

  1. DIÁLOGO DE UMA “RESISTÊNCIA RESISTENTE”

    Amigo Murilo é interessante percebermos esses elementos da sociedade de controle que vão se concretizado no cotidiano, a qual você com singular habilidade vai desnudando. Meus esforços se direcionam em colaborar numa tentativa de percebermos que a resistência não pode se resumir aos aspectos que direcionam as escolhas individuais sejam, elas para fugir ou distanciar-se dos instrumentos de controle.

    Acredito que a individualização já foi capturada como mecanismo de produção de controle, pois os indivíduos foram aprisionados ao seu próprio “eu” e por isso a estética demonstra-se o mais recente campo de batalha, tornando-se uma luta diária (basta ver as lutas cotidianas para perder peso ou entrar em “forma”) e pensar que somos nômades (apesar de gostar dessa idéia) pode ser uma “miragem”. Se agora pela biopolítica é a minha “alma” que está contaminada pelo sistema, como reagrupar minhas forças de resistência?

    Também acredito que Multidão é espaço criativo e potencializador de resistência. Porém quero ressaltar aspectos que podem significar fragilidades conceptuais como a exemplo quando propus o pensamento sobre as “massas”. Como reconhecer as reais construções sociais e políticas no interior da população para que possamos identificar até onde as características de massa e da multidão se diferenciam. O problema está em que se concordamos que ocorre um sistema de controle que “formata” a sociedade, teremos que identificar que sua ação é personalizada, pois como bem sabemos vivemos numa sociedade individualizada. As massas não absorvem as idéias totalizantes que tendem a criar uma homogeneização. Essa tentativa já se demonstra esgotada, pois, a uniformidade social foi deslocada para uma compreensão da sociedade como plural e de extrema capacidade de absorção e repulsa dos signos emitidos. A Multidão é o espaço da multiplicidade, da diferença e da luta. Possui em sua extensão uma coexistência de movimentos que geram vida e que a alimentam. Essa potencia criativa é produtora de força reativa, da mesma maneira que a torna indomável, emite ondas de suas fragilidades.

    Essas constatações já indicam as características do discurso da Massa e da Multidão. O interessante que essa ideia já foi há muito tempo apreendida e colocada em prática pela chamada sociedade de controle. Anteriormente as vias utilizadas pensavam em elaborar estratégias tendo como princípio a regulação, dominação e alienação das massas, da mesma forma os grupos de luta social que trabalhavam a possibilidade de libertar, conscientizar, emancipar provocando a insurreição das massas, sejam de operários, trabalhadores rurais, dos pobres entre tantos outros, ou seja, ambos os lados implementavam um olhar analítico imaginando que a massa seria “manipulável”.

    A biopolítica como sabemos atenta-se em alcançar o controle dos indivíduos e para isso vai identificá-lo por seus elementos pessoais. Obviamente que sua estratégia também leva em conta a cooptação dos fatores que lêem as especificidades de etnia, gênero, classe, cultura, opção sexual, nacionalidade e localidade.

    Poderíamos dizer que a idéia de controlar a massa deu lugar à multidão?

    O espaço virtual é dotado de um poder de alcance fantástico, porém resta saber qual o conteúdo mais acessado na internet, quem sabe com esse dado saberemos sua real condição de resistência. Pois o mercado da mesma forma que converteu a cultura em produto, vem lapidando o mundo virtual e imprimindo nele a marca do consumo, como você mesmo bem apontou navega na frente de nosso olhar serviços, mercadorias, novidades, moda, comportamentos. . .

    É bom relembrar que a biopolítica não expeli os corpos indesejados apenas lhes dão forma de docilidade, insignificância e marginalidade. Na parte final de minha participação no diálogo. Deixei alguns aspectos que tentarei complementá-los.

    “O mercado subjugou todos os campos da vida, até mesmo os seres humanos ganharam coloridas roupagens tornando-se produtos prontos para consumo. Se entendermos, que não há mais um centro de poder que emite ondas virulentas precisa-se avançar numa resistência que supere também um olhar centralizador, ou seja, que produza também “micro-contrapoderes” que exerçam a função de “desconstrução” do conjunto representativo do Império, produzindo assim, uma resistência que absorva do pensamento global as fissuras que permitem a luta local.”

    O movimento que denota o existir do Império funciona na lógica da descentralização e por ser desenraizado, ele se encontra em toda parte, mas não está em lugar nenhum, como também não se fixa a um espaço. Quero com isso reforçar a ideia que se aproxima do diálogo que é o desenho de uma resistência que esta em movimento não apenas espacial, mas da produção imaterial (conhecimento criativo) que regido por uma abertura comunicacional venha a permitir o reconhecimento tanto do campo de batalha como dos que partilham de sua bandeira de luta como de seus adversários.

    A produção cultural que melhor se encaixa quando nos atentamos as suas influências é a cinematográfica, a qual, ganha um espaço de convergência na formulação do imaginário coletivo vital para produção de subjetividades. Quem sabe uma das tarefas da resistência não seja mais criticar o nacionalismo-imperialismo note americano produzido pela indústria cinematográfica, mas de ressignificar suas atuais nuances contidas nos filmes contemporâneos, identificando que há obras de imensa elucidação e critica aos moldes societários.

    “O espaço da resistência está na formulação de uma rede criativa que se conecte numa luta em torno dos signos e que formule proposições de constituição do comum”.

    Acredito que a resistência tem que se posicionar no front, que seria ocupar os espaços de luta, e o virtual é de extrema importância. Mas quais são os elementos que propiciam um levante, não na ideia de massa, mas da multidão, eles são identificáveis no Império, mas nosso olhar tem que de desprender da tentativa de encontrá-lo e codificá-lo. A tarefa que se mostra é descobrir que a resistência tem no lastro deixando pelo Império por onde ele transita os pilares que propiciam a constituição do comum e que fomentam uma rede criativa que potencializa a multiplicidade das lutas como também as articulam como um grande corpo de micropoderes de “focos de resistências”.

    Para encerrar entendo que são nas “atrofiações” produzidas pelo Império que devemos conduzir nossas forças de resistência. E para isso teremos que ressignificar e ampliar nossa compreensão de incluídos e excluídos, de acesso livre e banidos, de consumidores e ludibriados, de seres humanos aptos e a mais valia descartável, de segurança e insegurança, do sólido e do líquido.

    A constatação de alguns elementos que foram produzidos e reproduzidos na malha do tecido social tendem a demonstrar-se instrumentos canalizadores de uma resistência que compreenda que a multidão ao encontrar essa “falha no sistema” exercerá um movimento que permita quebrar a crosta de uma existência insegura para erguer de uma multiplicidade de clamores e anseios, uma só voz que é o instrumento dialogal que abre as portas para a emersão de uma sociedade de indivíduos autônomos.

    A sociedade de controle permite que os indivíduos ou as forças de resistência neguem suas normatizações e expressem suas insatisfações. O que não é permitido aos resistentes é que se movimentem no sentido de ocupar os espaços de poder e que venham almejar que o controle troque de mãos (capital). Mas do que nunca, e estrategicamente motivado pela sociedade de controle, a resistência se distância do embate político. A rede de resistência que se movimenta no interior da Multidão deve convergir na constituição de um espaço comum, que é ocupar com vigor os espaços públicos a ponto de paulatinamente gestar uma práxis que levem os aparatos de controle a reduzirem sua influência sobre os indivíduos.

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